top of page
Buscar

O drible que o tarot pode dar: jogo, corpo e imaginação

  • Foto do escritor: Wesley Vidal da Luz
    Wesley Vidal da Luz
  • há 24 horas
  • 6 min de leitura

Por esses tempos, tenho expandido minha presença na internet, como forma de divulgação do meu trabalho e das minhas percepções com o tarot. Meu modo de ver o oráculo e, por que não, a vida, sempre foi pautado pelo que na minha terra, sertão do Ceará, a gente chama de “gaiatice”: um jeito brincante de olhar os arcanos, buscando o disruptivo, o cômico, o inesperado ou o olhar original, às vezes marginal. Sempre achei que esse jeito do cearense faz a gente levar a vida dura do sertão de forma mais leve. Mas também sempre senti que essa forma de ver o mundo garante um frescor, uma abertura, uma espécie de inteligência outra. O jeito gaiato cearense, ainda que não esteja sempre no meu cotidiano de personalidade, está - graças aos meus Orixás - no meu modo de ver o tarot e a arte.

            Bom, digo tudo isso para afirmar que, no aprendizado teórico e, principalmente, prático com as cartas, a habilidade de ser brincante deveria ser compreendida como uma qualidade desejável - diria mesmo, necessária - no cartomante. Isso porque o ato de ler e traduzir o símbolo, embora produza efeitos reais e concretos, advém de um gesto que se funda no mistério e que é, em última instância, lúdico e artístico. Há algo de profundamente significativo no fato de alguém parar para olhar e “ler” o tempo e a vida em cartas de papel pintadas. Esse gesto contém, inevitavelmente, um traço de brincadeira, de absurdo e de imaginação.

            Brincadeira porque possui uma atitude lúdica tanto em seu contexto histórico original - os jogos de mesa em ambientes populares - quanto em sua práxis, ao permitir o gesto analógico entre a vida e os símbolos. Absurdo porque nosso mundo materialista, moldado há séculos por uma visão racionalista, ainda tende a considerar a arte, a poesia e o símbolo como algo insuficiente para a construção da realidade. Imaginação porque, obviamente, o exercício analógico entre símbolo e a experiência do real exige essa habilidade humana, afinada por uma espécie de retidão sensível e disciplinada - e aqui ecoo e enalteço a formulação hoje em dia tão pop (com razão) de Oswald Wirth: “adivinhar é imaginar com justeza”.

            Recentemente, eu estava lendo o livro “Ponta-cabeça – educação, jogo de corpo e outras mandingas”, do professor Luiz Rufino, e me deparei com ideias que cabem - ou gingam - perfeitamente aqui, e podem nos permitir ir um pouco além: para o professor Rufino (2023) a brincadeira não é apenas uma atitude leve ou um recurso expressivo. Ela pode ser entendida como forma de saber. Uma inteligência do gesto, do corpo e da experiência, que não se submete à lógica utilitária dominante, nem à exigência de que todo conhecimento deva se justificar pela produção ou pelo cálculo. Brincar, nesse sentido, não é esvaziar o rigor, mas é deslocá-lo. É operar por outras vias: pela analogia, pelo ritmo, pela presença, pela escuta do que não se apresenta de forma imediata ao pensamento racional.

            A dimensão aparentemente absurda, profundamente lúdica e, graças aos deuses e às deusas, imaginativa, longe de desqualificar o tarot, revela sua natureza simbólica e sustenta sua metafísica viva. O jogo respira na metáfora, na associação e na narrativa que emerge do encontro entre imagens, leitor e contexto. O cartomante, nesse sentido, não apenas interpreta símbolos: ele encena uma relação com o tempo, com a linguagem e com o desconhecido. Há aí um elemento performático, no sentido de presença (como um performer ou um ator em cena) e também de escuta e de criação de sentido no instante.

            No teatro, por exemplo, sabe-se que a função do ator não é imitar ou fingir, mas viver, vivenciar em sua imaginação o estado existencial/emocional da personagem, e assim trazer à tona o conteúdo humano evocado pela mesma. O cartomante, por sua vez, no ato de traduzir os símbolos em palavras, busca nessa fonte profunda, criativa e eterna que é a experiência humana de estar vivo e cônscio, busca palavras, ideias e conceitos que comuniquem à plateia-consulente o conteúdo do símbolo. Não à toa o tarot funciona para cada cartomante através de vias próprias, únicas, ainda que reproduzidas pelo estudo criterioso da tradição e dxs cartomantes que vieram antes. Não à toa a prática oracular com o tarot é uma arte. O tarot é único e respira, anda, come e dorme de forma tão única quanto o cartomante que o maneja. Assim como cada ser humano, o tarô é igual e único em relação ao todo.

            E talvez seja possível dizer ainda mais: esse jogo, essa disposição ao lúdico que não só o tarot, mas toda forma de arte e, como bem disse o professor Rufino (2023) todo conhecimento pressupõem, não seja apenas uma metáfora. Seja também uma experiência.

            O ato de abrir cartas envolve o corpo - o gesto de embaralhar, cortar, dispor, olhar, falar - e convoca uma forma de atenção que não é puramente intelectual. Há um ritmo, uma cadência, uma espécie de dança discreta entre mãos, os olhos, as palavras e o silêncio. A dança do encontro entre humanos. E há os anseios do consulente, literalmente corporificados em sua presença física diante do baralho e do cartomante. E há, talvez acima de tudo, a fisicalidade do baralho enquanto objeto: o papel pintado, disposto na mesa, uma presença por muitos tida como sacra, e com toda certeza tida por todos os cartomantes como uma presença ontológica.

            Nesse sentido, a leitura de tarot também pode ser compreendida como prática encarnada, como um saber que se faz no - e pelo - corpo, ainda que não se restrinja a este.

            A primeira pessoa que resolveu ver a vida refletida nas cartas que tinha sobre a mesa realizou um gesto aparentemente pequeno, e brincante, para si mesma, mas que representou um grande passo para a humanidade. Ao reconhecer o mundo, o tempo e a experiência humana espelhados em imagens arbitrárias, essa pessoa operou uma ruptura com o uso ordinário das coisas. Trata-se de uma atitude de loucura, no sentido de extra norma: um desvio da expectativa comum, um atravessamento da regra, um salto imaginativo que permite ver sentido onde antes havia apenas matéria inerte disposta à outra funcionalidade.

            Essa loucura, porém, não deve ser entendida como descontrole ou delírio improdutivo. Ela se aproxima mais de um gesto criativo, de uma espécie de astúcia simbólica que escapa às capturas da norma. É, de algum modo, a mesma força que anima a arte, o mito, o rito. O mestre Luiz Rufino chama de mandingueiro esse saber que não se fixa, que não se deixa reduzir, que joga com o visível e o invisível.

            Nunca me pareceu à toa, ainda que no nível da coincidência, que o jogo de tarot tenha possíveis raízes etimológicas associadas à palavra louco. Mesmo quando essa ligação, talvez, não se sustente historicamente de modo rigoroso1, ela se sustenta simbolicamente: o Tarot nasce e se mantém vivo porque exige do leitor uma disposição para o movimento, para o risco do primeiro passo interpretativo, para a imaginação e para a suspensão momentânea da norma racional estrita.

            A partir dessa compreensão, o estudo do tarot pode ser pensado como um exercício imaginativo e lúdico que, ao mesmo tempo, abre espaço para uma forma de conhecimento não capturada pela lógica dominante da utilidade. Há, nesse gesto, algo de profundamente vital: um drible, uma maneira de reposicionar a experiência fora dos esquemas rígidos da produção de sentido previamente estabelecida.

            Nesse sentido, repito, a capacidade de ser brincante deveria ser cultivada como forma de retorno ao gesto inaugural da leitura simbólica. Foi através dessa disposição flexível, inventiva e disponível ao inesperado que as cartas puderam atravessar o campo do jogo e se lançar nas veredas das mancias, falando sobre e com a vida e seus viventes.

            Talvez seja justamente nessa fronteira entre o jogo e o abismo, entre imaginação e norma, entre lucidez e risco, entre mente e corpo, que o tarot encontre sua força. O cartomante que se permite brincar não está infantilizando o sagrado, mas reconhecendo que o símbolo só se revela a quem aceita entrar na dança do sentido. Sem esse gesto inaugural, que é sempre um pouco louco e sempre um pouco lúdico, as cartas permanecem apenas papel pintado. Com ele, tornam-se espelho, rito e linguagem viva: oráculo.

 

REFERÊNCIAS E CITAÇÕES:

Nadolny, Isabelle. A História do Tarô – um estudo Completo sobre suas Origens, Iconografia e Simbolismo. Editora Pensamento. 2022

Rufino, Luiz. Ponta-cabeça: educação, jogo de corpo e outras mandingas. Mórula editorial. Rio de Janeiro, 2023.

WIRTH, Oswald. El Tarot de los imagineros de la Edad Media. Barcelona: Teorema S.A., 1986.


 
 
 

Comentários


Tarosófilo

por Wesley Vidal da Luz

com um Tarot nas mãos

e o Tempo nos olhos

© 2026  por Wesley Vidal da Luz 

bottom of page