O símbolo é corpo vivo


“Deus, ontem liguei-te
disseram que não podias atender,
estavas na fisioterapia.”
Esse poema abre o livro “Fisioterapia”, do F. S. Hill, cuja beleza, ironia, concretismo e palavras, como diria Manoel de Barros, “voam fora da asa”. Os poemas de Hill são tão imagéticos que imediatamente relembrei um hábito antigo: colocar arcanos frente às palavras, para e(s)coá-las.
Ao lado do Fisioterapia, pus dois arcanos: o Papa e o Eremita. Vi primeiro a figura a quem se pede ajuda; depois, a passagem do tempo inscrita no corpo, o corpo que se ausenta em auto(cuidado), ou a busca-espera por algo-alguém ausente.
A graça do poema estava ali: até Deus talvez precise de cuidado, de tempo, de fisioterapia. Deus e seus ossos antigos, recorrendo a TENS, alongamentos, exercícios e à paciência de todo paciente.
Aí fiquei pensando: como se representa a fisioterapia no tarot? Seria preciso encontrar a carta da reabilitação? E maior: como uma coisa se representa no tarot? Sempre com um arcano? Dois? Uma tiragem? Uma sequência?
Enquanto embaralhava o maço com essas perguntas na cabeça, tirei algumas cartas ao acaso. Vieram a Papisa, o Enforcado, a Casa de Deus e o Mago.
Bingo! Tudopom, tarot quirido?
Um daqueles momentos que o tarot mostra que realmente está sempre conversando conosco, que está sempre pronto para hablar.
O tarot pode representar uma ideia sem condensá-la numa única imagem. Uma carta modifica a seguinte; juntas, elas começam a se articular para contar uma ação.
A Papisa lê, guarda, estuda. A ela, o Enforcado apresenta um corpo em outra posição, com seus movimentos e possibilidades alterados. A Casa de Deus introduz uma ruptura: algo na estrutura daquela vida já não se mantém como antes. E, por fim, o Mago dispõe seus instrumentos sobre a mesa e põe as mãos à obra.

Vi aí um percurso possível da fisioterapia: o conhecimento encontra um corpo concreto, atravessa com ele uma mudança e se torna prática. O trabalho não consiste sempre em fazer esse corpo “voltar a ser o que era”. Às vezes consiste em descobrir, com ele, outras maneiras de se mover e de agir. Outras formas de existir funcionalmente diante ou depois do desmoronamento.
Se volto o olhar do Mago para a Papisa, a sequência também muda: a experiência com o corpo produz perguntas, e as perguntas pedem mais estudo. O saber alimenta a prática; a prática transforma o saber.
O símbolo, assim como o corpo humano, tem muitos músculos, articulações, ossos e ligamentos: são possíveis inúmeros movimentos, variados planos de interpretação, desde que se respeitem as limitações naturais, ou circunstanciais, da estrutura. O símbolo possui a força de impulsionar raciocínios, tracionar compreensões, pesar conceitos, movimentar percepções. O símbolo é corpo vivo. Assim como o corpo, o símbolo não possui postura definitiva, a não ser quando morto.
E tudo isso veio de um poema! É isso que dá ler poesia do lado de um tarot; ou com os arcanos habitando a gente. Foi uma tiragem casual, e não pretendo fazer dela uma definição da profissão. O que ela me mostrou foi uma possibilidade de leitura. Quando conversamos com o tarot, as formas com que ele nos fala são múltiplas.
No caso, a fisioterapia não se escondeu em um arcano, mostrou-se no movimento e articulações entre as imagens e o cartomante. E me deixou pensando que, como todo bom oráculo, o tarot é corpo que capta a vida, é corpo na vida, e pede olhos perspicazes para percebê-la.




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