um milhão de seres humanos


Um dia em que o frio se derrete. Que a pedreira cede. Que a gente amanhece tremendo de frio e termina suando, na agitação do corre, na correria capitalista. Dia de pensamentos obtusos, decisões adiadas, luzes no escuro. Eita eclipse, osso duro de passar!
Estava eu no metrô, atravessando o túnel da baldeação entre Consolação e Paulista, quando um rapaz passou por mim com uma menina nos ombros.
Não sei se era filha, sobrinha, irmã. Só vi aquela pequena pessoa atravessando o metrô alguns palmos acima de todo mundo.
Enquanto passavam, entreouvi:
“Cuidado pra não derrubar o óculos. Que aqui é um milhão de seres humanos! Você vai ver, aí de cima”.
Olhei em volta. Talvez não houvesse exatamente um milhão, mas naquele túnel às vezes parece que há. Gente vindo, gente indo, gente desviando de gente, cada corpo calculando rapidamente uma rota possível entre outros corpos. Um rio subterrâneo de pessoas.
A menina, porém, estava acima da correnteza. Fiquei imaginando o que ela via. Nós, adultos, atravessávamos aquele lugar vendo ombros, mochilas, nucas, rostos que aparecem por um instante e desaparecem.
Todos preocupados com suas coisinhas.
Já a menina, ela devia enxergar outra coisa. Talvez o desenho da multidão. Cabeças indo e vindo, abrindo e fechando caminhos, um rio com muitos peixinhos.
Um milhão de seres humanos.
Você vai ver, aí de cima.
Baixei os olhos, voltando ao meu reles nível, adulto no fluxo da funcionalidade, calculando minha rota e meus movimentos, que precisava chegar à estação República. Olhei novamente para o rapaz. Foi quando vi na sua camiseta uma carta de tarô: A Justiça. Parei um segundo por dentro, enquanto corria na toada da multidão. Tirei o celular do bolso, fiz a foto que acompanha esse texto, e fui seguindo, pensando na imagem.
Como o dia que acabava, derretendo sua aspereza, aquela Justiça, sempre tão fria, tão rígida, mostrava outro balanço no despojo da sua presença, sem perder um tiquinho da autoridade. Era uma mulher negra sentada numa cadeira, de calças largas, tênis, brincos grandes. Atrás dela, uma cortina onde se vê o Òsé de Sàngó, o “Machado de Xangô”.
Káwòó Kábíyèsílẹ̀!
Uma Justiça contemporânea, transitando ali, tranquilamente, nos tubos da cidade.
Eu achei linda a composição inteira: o homem carregava a menina nos ombros e, nas costas, carregava a Justiça. A menina via o mundo lá de cima. A Justiça seguia lá embaixo, atravessando a multidão.
Há momentos em que o tarô parece ter a delicadeza de não precisar ser tirado. Nenhuma pergunta havia sido posta. Nenhum baralho embaralhado. Nenhuma carta cortada.
A Justiça simplesmente passou por mim no túnel do metrô. A menina continuava dentro daquele milhão de seres humanos, atravessando o mesmo túnel, sobre os ombros do seu sagaz carregador. Mas sua perspectiva era outra.
Alguns centímetros a mais, ou a menos, os tais “outros ângulos”, bastam para que o mundo mude de forma.
Acho que seja também uma das coisas que faço quando abro cartas sobre uma mesa.
Não retiro ninguém da multidão. Não interrompo o movimento das estações. Não descubro uma passagem secreta que permita escapar do emaranhado das coisas. Só tento subir um pouco o olhar. Ver os movimentos. Perceber por onde as pessoas passam, onde os caminhos se cruzam, onde alguma coisa se aproxima, onde outra se afasta. Pesar distâncias. Comparar direções. Encontrar alguma medida possível no meio do fluxo. Depois cada um continua andando. Inclusive os arcanos.
Hoje eu também continuei.
O rapaz e a menina se embaralharam entre as pessoas e arcanos quando precisei baixar novamente o olhar e descer as escadas rumo à plataforma do trem. Não sei para onde foram.
À menina e ao rapaz, obrigado. E cuidado com os óculos, sempre. Ela deve ter visto lá de cima alguma coisa muito mais interessante do que tudo isso que pensei.
Durante alguns segundos, no túnel entre Consolação e Paulista, éramos mesmo um milhão de seres humanos.




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